O óbvio que a Pandemia tem nos mostrado




Vivemos sob o espectro do coronavírus, uma verdadeira pandemia do óbvio. Como assim? Já reparou que, neste período, fomos inevitavelmente empurrados para o mais básico dos gestos, das faltas, das soluções?

Pois é. Estamos tendo que reaprender à fórceps a relevância das coisas mais simples.  Tudo que a urgência e necessidade da pós-modernidade líquida nos fez esquecer. Ou, entender como não prioritários que às vezes passaram a parecer desnecessários. Afinal, as atualizações impedem imperiosos reboots.

E como todo aprendizado, isso leva tempo. Um doloroso tempo para tornar-se algo automatizado no nosso ocupado cérebro. Pior, este tem se mostrado um período forçado de reaprendizado das coisas simples da vida. E contrariando o dito popular, não tem sido como andar de bicicleta que nunca esquecemos. Não, nossos valores e práticas atuais criam entraves para reaceitarmos coisas tão básicas.

O Covid-19 veio “preciso como Bruce Lee” da canção Um Índio (Caetano Veloso) ou como no poema Intertexto de Brecht*, em que o fato de estar longe reforçou nosso descuido habitual e nos deixou perplexos quando bateu a nossa porta.

 

A pandemia do óbvio apresenta um enorme checklist, que vai se atualizando a cada dia:

  • É preciso retornar aos mais básicos hábitos de higiene, que é lavar as mãos com cuidado;
  • Precisamos ter cuidado e carinho com os nossos velhinhos, proteger essa história viva da construção dos nossos valores;
  • Que a convivência faz falta. Sim, o homem é um animal social, ritualístico, e a companhia com seus pares ajuda na sua construção;
  • Por falar em conviver, temos família e que é bom estar em casa, conversar, abraçar, etc. Mas que é primordial resolver os problemas, mágoas, rancores;
  • A impossibilidade do encontro dos que estão mais distantes incomoda. Eles fazem uma enorme falta;
  • O contato é primordial, principalmente para os brasileiros, tão conectados com seus pares nos abraços, cumprimentos, no olhar;
  • O virtual não é vital. Mesmo que aproxime, estamos vendo que ele é distância. Alternativa, mas não substituição;
  • Fundamental é vivenciarmos o maior dos encontros: o feito conosco. Nossa eterna companhia é esquecida o tempo todo para resolvermos as outras demandas. E esse encontro faz uma enorme falta;
  • A importância do tempo. Reclamamos tanto da falta dele que, quando o temos um pouco à nossa disposição ficamos perdidos

 

Mas como nada é um mal em si que não nos traga um aprendizado subjacente. O Covid-19 nos faz um convite a reflexões e correção de rotas. Afinal, o conceito tempo é psicologicamente maleável e relativo: fatal para os que desistem ou oportunidade para quem tem interesse.

Por isso, temos utilizado medidas paliativas para o período e que serão aprimoradas com o passar do tempo. O sistema Home Office e a gama de vídeo (aulas, conferências) são exemplos mais explícitos. Novos modelos de negócio e formas de consumo deverão surgir neste período. O mercado apropria-se de soluções emergenciais e as aprimora.

Esse texto como um todo pode parecer óbvio. De fato, o é. Assim como foi a palestra de Bill Gates neste TEDx de 2015**, em que alertou sobre a possibilidade de uma pandemia e poucos se atentaram. Um curto período em que nada prático foi feito, nenhum cuidado foi tomado.

Historicamente, a humanidade passa por períodos assim. Chacoalham nosso  modus vivendi. Sairemos deste período diferentes. O juízo de valor se melhores ou piores vai depender da decisão de cada um de nós. Mas isso é óbvio....

 

*(https://www2.unicentro.br/pet-letras/2017/03/29/intertexto-bertold-brecht-1898-1956/?doing_wp_cron=1586512568.7948920726776123046875)

** (https://www.ted.com/talks/bill_gates_the_next_outbreak_we_re_not_ready?language=pt-br)

https://www.linkedin.com/pulse/pandemia-do-óbvio-andré-carvalho/

 

 

Fonte: Linkedin

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